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Acesso Restrito

Notícias

10/09/2011 às 14:28:32 (8 mêss atrás)

Um homem da música

São nove horas de uma sexta-feira na Califórnia. O telefone toca no quarto de hotel, o compositor Philip Glass atende e pede um minuto para “acordar”. Nos últimos seis dias, ele fez seis concertos em três cidades dos Estados Unidos. Há anos, ele leva uma rotina de trabalho extenuante - para quem está de fora. Ele diz adorar. “Acordo e já começo a trabalhar. Vou assim até à noite”, disse em entrevista por telefone ao Diário, semana passada, enquanto participava do Days and Nights Festival. O resultado de tantas horas dedicadas ao ofício é extenso, criativo e, muitas vezes, genial. Glass já foi chamado pela imprensa norte-americana de “o compositor mais prolífico do mundo”. E a afirmação não é um exagero. São inúmeras coloborações para trilhas, discos, sinfonias, óperas.

A relação do compositor com o Brasil é estreita. “Falo um pouquinho de português”, diz no começo da entrevista. Sobre o país, já compôs duas sinfonias, uma sobre a hidrelétrica de Itaipu e outra sobre a favela da Rocinha, gravou com o grupo Uakti e compôs a trilha de Nosso lar. Nunca veio a Pernambuco, apesar de um de seus filhos já ter morado por aqui. Hoje, Philip Glass toca pela primeira no estado durante a MIMO, a partir das 20h30, na Igreja da Sé. Apresenta o concerto Uma noite de música de câmara.

Conhecido pela sua proximidade com o budismo, a música oriental e como mimimalista, Philip Glass afirma que não se incomoda com os rótulos, mas eles não o representam mais.  

Entrevista >> Philip Glass

Sua música é muito associada a imagens, como filmes, instalaçãoes artísticas, espetáculos de dança…
Isso é bem verdadeiro. Não foi uma escolha consciente, mas eu sempre tive interesse nessa área. Sempre fui inspirado pelo trabalho de outros artistas. Pode ser um filme, uma dança, uma pintura, se eu achar o trabalho inspirador eu respondo com música imediatamente. Eu me oriento nesse sentido. Isso começou quando eu era um jovem compositor e comecei a compor para um grupo de dança. E tem sido assim há mais de 50 anos.

Como é o seu processo de composição para um filme?

Às vezes o filme ainda nem está pronto, é só um projeto. Aí eu falo com o diretor, leio o roteiro. Às vezes o filme já está pronto e você vê as imagens e vai criando a música. Estou trabalhando agora na trilha de um filme (Stoker, de Chan-Wook Park) que ainda está sendo filmado e já estou compondo a música porque eles precisam dela para tocá-la durante as gravações. A composição da trilha pode acontecer em qualquer momento do filme. Mas, em se tratando de filmes comerciais de Hollywood, é geralmente quando o filme já está pronto. Quando eu fiz a trilha para Nosso lar, o filme não estava nem perto de estar pronto. Eu vi apenas algumas partes, mas eu sabia da história toda, porque havia lido o roteiro e conversado com o diretor. A música ficou pronta bem antes do filme.

Compor uma trilha sonora deve dar muito trabalho. Você faz tudo sozinho ou tem uma equipe?

Eu escrevo toda a música sozinho. Tenho um ajudante que pega a música e coloca num programa de computador, porque eu não sou muito bom com computadores. E quando a música está digital eu posso fazer as correções mais facilmente. Os filmes têm também um diretor musical e o sentido da composição pode mudar quando eu converso com eles. É como pegar um vestido e levar para o costureiro: ele faz os ajustes necessários ao corpo. A trilha sonora também tem que se adaptar para vestir o filme.

É verdade que até os 42 anos você era taxista? (Philip Glass tem hoje 74 anos)
Mais ou menos. Eu fui taxista até os 41, 42 anos, mas eu fiz isso durante uns cinco anos. Mas eu tive vários empregos diurnos enquanto eu também trabalhava com música, mas não exclusivamente. Trabalhei com construção também… Basicamente, eu tive todos os tipos de empregos.

Você acha que hoje é mais fácil viver de música?
Muito, mas muito mais difícil. Porque quando eu trabalhava em outras coisas, eu só trabalhava dois dias e tinha tempo e dinheiro para me dedicar à música pelo resto da semana. Hoje, não. Um jovem tem que trabalhar seis dias por semana para conseguir sobreviver. Também há mais pessoas trabalhando com música, a competividade é bem maior. A música comercial faz as pessoas pensarem que podem ser ricas e famosas, mas não é verdade para a grande maioria delas. É um mercado saturado, muito mais difícil do que quando eu era jovem. A internet ajuda a divulgar seu trabalho, é fácil ter sua música publicada, mas muito mais difícil fazer com que ela seja ouvida, uma vez que as gravadoras praticamente acabaram. Para ser sincero, era até bem fácil na minha época (risos).

Por que você não gosta do termo minimalista?
Não é que eu não goste, é que não me representa mais. Sim, eu escrevi peças que podem ser rotuladas de minimalistas. Mas isso foi há quarenta, trinta anos atrás. Depois eu fiz tantas outras coisas diferentes… não é algo que represente a totalidade da minha obra.

Você tem uma ligação muito forte com a música oriental e o budismo. Você é budista?
Não, nunca fui. Todo mundo pensa que eu sou. É verdade que eu passei algum tempo em uma comunidade budista. Mas também em outras comunidades, como a hindu. Tenho interesse em pessoas que se comprometem. Mas eu não pertenço a um clube. As pessoas dizem que leram no jornal que eu sou budista… mas não tenho como controlar o que é publicado sobre mim. Também dizem que eu sou minimalista.

Você trabalhou em peças de Samuel Becket. Chegou a conhecê-lo?
Eu morava em Paris e trabalhei com um grupo de teatro lá, fiz trilhas para uns dez espetáculos dele. Tínhamos uma única pessoa no grupo que falava com ele. E quando eu estava compondo para as peças dele, eu mandava perguntas sobre que direcionamentos seguir. Mas nunca falei pessoalmente com ele, apesar de sermos praticamente vizinhos. Ele era uma pessoa reclusa. Não gostava de ficar rodeado de muitas pessoas.  

Fonte: Diário de Pernambuco
Foto: Beto Figueiroa/Santo Lima

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